quarta-feira, 4 de março de 2009

Faço ou não faço?

Dia desses conversava com um amigo sobre a necessidade de fazer linha aqui em Campo Grande. Chegamos a conclusão de não tem jeito, tem que fazer. Dar aquela engrossada na voz, fazer o rústico, fazer linha de que é "praticamente" hétero é fundamental se quiser sobreviver no interior do Brasil. Sei que esse não é apenas um problema de quem vive afastado dos grandes centros, que nas cidades maiores também tem muita gente preconceituosa, mas aqui é fundamental se quiser se manter vivo em algumas áreas.

Numa cidade que vive do agro negócio transmitir um ar de macho sempre ajuda. Ajuda na hora de procurar emprego, ajuda na hora de se relacionar, ajuda até na hora de pegar táxi ou ir ao supermercado. Pode parecer que to usando pré-conceitos, mas já vi muita gente competente, muita gente bacana ser queimada na fogueira por uma expressão menos masculinizada. Parece que dar uma pintinha de vez em quando acaba com todo o trabalho de uma vida.

Já ouvi de muita gente comentários do tipo " é um bom profissional, mas é muito viado", "me parece uma boa pessoa, mas é gay", "não tem nada errado em ser gay, desde que não pareça". Uma vez um amigo veterinário me contou que por mais que ouvisse um comentário ou outro sobre sua sexualidade, fazer qualquer gesto que confirmasse isso seria o fim. Fim da vida familiar, fim da vida social e fim da vida profissional. Não que ele tivesse algum problema em ser gay, mas as pessoas ao redor, essas sim, teriam problemas por ele demonstrar que é gay.

Eu mesmo tento manter a linha o máximo que consigo - ok, quase não consigo - fora de um ambiente seguro. Se soltar com os amigos até vai, mas tenta fazer isso com o chefe. Tenta fazer isso com o pai de um amigo. O jeito fazer a linha neandertal.

O que angustia não é saber que tem de fazer linha, ou até mesmo ficar dentro do armário, é não saber o que fazer pra mudar essa situação. Se alguém souber, me ensina?

7 comentários:

Mike disse...

Aqui no estado de São Paulo a coisa está um pouco melhor que aí, mesmo no interior. Moro em São Paulo, mas sou do interior e lá as pessoas até se liberam mais e os héteros respeitam um pouco mais, mas é óbvio que tem preconceito...

Já ouvi dizerem isso de Campo Grande... engraçado que um amigo meu daí me disse que "até para pegar homem você tem que fazer linha"... hauhauhauhauahua, ou seja, não tem jeito mesmo...

Rodrigo disse...

(Rodrigo de Brasília-DF, eu quero um Playstation 2! hehehe)

Bem, conheci o blog de vocês no ótimo blog do /sembolso.blogspot.com
e estou adorando as histórias! Parabéns!

Quanto a alguma solução pra essa história de fazer a linha, também não sei como agir.
Acho que Darwin estava certo quando elaborou a teoria da evolução das espécies, e de como elas se adaptam aos ambientes.
Essa mesma coisa acontece conosco, ou seja, temos que nos adaptar ao meio se quisermos sobreviver.

Até que ponto isso é covardia? Como se faz uma revolução???

Até mais!

Alexandre Lucas disse...

A aceitação nos grandes centros está ligada ao êxodo da maioria dos gays que vão para eles morar, afastando-se de suas cidades natais e de seus familiares. A concentração ajuda e dá "empowerment".

Acho a mudança passa por compreender a dificuldade dos que permanecem no interior do país, mesmo que nas capitais e nas atitudes políticas!

Adorei o texto.

Paulo disse...

É realmente complicado... moro em São Paulo, mas ouvia esse mesmo tipo de comentário de todos os meus amigos que vieram do interior! Se nem sempre é fácil aqui, quem dirá no interior do Brasil? Bem, boa sorte por aí!

E.S. disse...

A aceitação esta diretamente ligada a visibilidade. Quer ser aceito, sai do armário e dê a cara a tapa. Não é fácil, mas infelizmente é o preço que se paga por ser mais diferente que o resto do mundo. Sorry...

Gui Sillva disse...

fazer a linha? existe isso ainda?

Jack Morais disse...

Penso que tem de ser natural. A gente não consegue manter um personagem por muito tempo, além de ser desgastante. É claro que usar gírias e bater a mão na coxa é legal quando se está entre amigos, afinal a gente quer relaxar e brincar. Porém, no dia-a-dia, nem tem como ser assim. O lance é ser "simpático sério". ;-)