sábado, 4 de agosto de 2007

Cozinhas



Ultimamente tem um monte de blogs que têm se dedicado a comentar restaurantes e opções gastronômicas. Em cidades como São Paulo, pouca gente cozinha em casa. Menos gente ainda SABE cozinhar.

Hoje estava vendo um post antigo no blog do Duilio na Folha on Line, em que ele escreve: "

Tenho ido a vários apartamentos que têm cozinhas bonitas, tudo novinho, geladeira daquelas que estão na moda, toda metálica, fogão, pia e bancada tudo caro.

Uma prateleira cheia de potes, talheres de cozinhar pendurados. Tudo um luxo.

A reforma do apartamento, normalmente, abre a cozinha para sala. Fazendo uma coisa quase decorativa.

A única coisa estranha é que esses amigos raramente cozinham e normalmente pedem comida pronta por telefone.

A cozinha está sendo, aos poucos, deixada de lado como centro social da casa."

Isso me trouxe a reflexão de uma tradição em minha família, de descendência italiana, que já dura há pelo menos quatro gerações, que eu saiba. As casas tem duas cozinhas sempre, uma como a acima descrita, decorada, bem arrumada, onde mais se guardam coisas em geladeira como bebidas e pequenos insumos para lanches (presunto, queijo, requeijão, pão de forma, iogurte, leite, etc...) e uma mesa para cafés da manhã, da tarde e lanche da noite. Está sempre limpa e agradável. Fica dentro do corpo principal da casa.



Numa edícula ou varanda nos fundos ou lateral da casa, dando em geral para o quintal ou jardim, há uma segunda cozinha, geralmente com fogão industrial (família grande e minha mãe, cozinheira de mão cheia, não abre mão de um fogão que segundo ela cozinha bem mais rápido), geladeira com carnes, legumes da feira sempre frescos, queijos e restos de vinhos abertos e não totalmente consumidos para serem usados em receitas especiais. Geralmente há ali também os doces e sobremesas. Deliciosos pudins, pavês e outras iguarias (ainda bem que visito pouco, ou já estaria uma baleia, hehehe). Nesta cozinha preparam-se as refeições, sempre de múltiplos pratos, de forno e fogão. Nela sentamos e conversamos enquanto uma das pessoas da casa, em geral a mãe, mas pode ser outra, cozinha e os demais bebem e conversam, algumas vezes ajudando a picar, descascar, ou mesmo lavando um pouco da louça. Toda a louça da casa é trazida para ser lavada nesta cozinha. Nela há máquina de fazer macarrão manual, moedor de carne também manual usado para moer arroz amanhecido para o preparo de bolinhos de arroz e nela guardam-se louças, talheres e copos, em sua maioria, bem como as panelas e utensílios de cozinha. A decoração é simples, primando mais pela organização e LIMPEZA e a geladeira pode ser velha, a toalha da mesa antiga (sim, as duas cozinhas têm uma pequena mesa). Mas nela não se come. A mesa é para sentar-se e bater papo, beber e ajudar nos preparos. Nela, quando muito, experimentam-se as comidas. As refeições são servidas nos dias quentes em uma grande mesa (grande mesmo) de madeira na varanda - nos dias quentes, ou na mesa da sala de jantar - em dias frios, chuvosos ou ventosos, ou ainda em datas especiais.

Além de ternas lembranças de infância, sempre me impressionou como um sistema agradável, que reúne a família em torno da comida - sem exageros, na minha casa ninguém é gordo - além de extremamente funcional. Saudades...

Obs:(esta última foto, de 1918, é exageradamente antiga. Mostra uma antiga cozinha rural dos EUA).

2 comentários:

introspective disse...

Fiquei especialmente interessado pela cozinha de fora quando vc disse que lá tem pavê. Hummmmm...

Alexandre Lucas disse...

Sempre tem :) Acaba virando castigo hehehe.