domingo, 11 de maio de 2008

Transtorno Dismórfico Corporal - Sofrimento e luta inglória ...

Conforme prometido, segue o artigo sobre Transtorno Dismórfico Corporal, que ganhou a votação neste blog e no blog Performance com Saúde, do amigo e colaborador Paulo.Está sendo publicado simultaneamente em ambos os blogs (espelho).

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O Transtorno Dismórfico Corporal se caracteriza alterando a percepção que o paciente tem da própria imagem corporal, levando-o a ter preocupações irracionais sobre defeitos em alguma parte de seu corpo (por exemplo: nariz torto, olhos desalinhados, imperfeições na pele etc). Essa percepção distorcida pode ser totalmente falsa (imaginária) ou estar baseada em alterações sutis da aparência, resultando numa reação exagerada a respeito, com importantes prejuízos no funcionamento pessoal, familiar, social e profissional. Acomete mais freqüentemente o sexo feminino e inicia-se em geral na adolescência.

Um aspecto particular do transtorno dismórfico muscular, manifestado principalmente em jovens praticantes de academias de musculação, em sua maioria jovens adultos do sexo masculino, cursa com preocupações mórbidas com a imagem corporal que eram tidas até recentemente como problemas eminentemente femininos. Atualmente estas preocupações têm sido encontradas no sexo masculino. A dismorfia muscular é um subtipo do transtorno dismórfico corporal que ocorre principalmente em homens que, apesar da grande hipertrofia muscular, consideram-se pequenos e fracos. Além de estar associada a prejuízos sociais (desmarcar programas com amigos e familiares por causa dos horários da academia), ocupacionais (rejeitar empregos que atrapalhem a rotina do "treino"), recreativos (evitar mesmo relacionamentos pelo tempo que teria de ser investido em detrimento do "treino) e em outras áreas do funcionamento do indivíduo, a dismorfia muscular é fundamental fator de risco para o abuso de esteróides anabolizantes, hormônio do crescimento humano e outras substâncias. Trata-se de um transtorno alimentar predominante do sexo masculino.

No Brasil desde o final dos anos 80 a preocupação excessiva com o corpo e os transtornos relacionados a alterações de imagem corporal pareciam acometer, quase que exclusivamente indivíduos do sexo feminino. De fato, 9 entre cada 10 pacientes com anorexia e bulimia nervosas ainda são mulheres. No entanto, estas alterações têm sido cada vez mais descritas em indivíduos do sexo masculino.2-5 Ao contrário das mulheres que procuram tornar-se magras, indivíduos do sexo masculino preocupam-se em se tornarem cada vez mais fortes e musculosos. A dismorfia muscular, quadro associado à distorção de imagem corporal em homens, parece ser uma resposta equivalente àquela feminina em se adequar ao padrão corporal ideal, descrito e apreciado socialmente. No livro “As Horas” - “The Hours” , por Michael Cunningham, há um trecho em que o autor diz: “os gays buscam a imagem de seus algozes na época da adolescência”. Fica a idéia para pensar. O Livro foi ganhador de um prêmio Pulitzer.

O Transtorno Dismórfico Muscular também é chamado de anorexia nervosa reversa por alguns autores.

Em termos gerais, alterações de imagem corporal no sexo masculino, ao contrário do que se pensava, são quadros relativamente comuns e diferem do padrão de distorção tipicamente feminino. As mulheres apresentam níveis bem maiores de insatisfação que os homens e descrevem sempre corpos mais magros como objetivo. No caso dos homens, a maioria considera um corpo mais musculoso como representação da imagem corporal masculina ideal.

Analisada em 1998 uma amostra de 108 fisiculturistas (com e sem uso de esteróides anabolizantestes), observou-se o que foi denominado na época de anorexia nervosa reversa. Foram identificados indivíduos que se descreviam como muito fracos e pequenos, quando na verdade eram extremamente fortes e musculosos. Ademais, todos relatavam uso de esteróides anabolizantes e dois tinham história anterior de anorexia nervosa. Revisados conceitos, renomeou-se o quadro, que passou a ser chamado de dismorfia muscular, enquadrando-o entre os transtornos dismórficos corporais. Ao contrário dos Transtornos Dismórficos Corporais típicos, nos quais a preocupação principal é com áreas específicas, a dismorfia muscular envolve uma preocupação de não ser suficientemente forte e musculoso em todas as partes do corpo. Além disto, os indivíduos acometidos passam a ter uma importante limitação de atividades diárias, dedicando muitas horas a levantamento de peso e dietas para hipertrofia.

Etiologicamente, aspectos socioculturais parecem desempenhar um papel fundamental na dismorfia muscular. A importância que a sociedade demonstra em relação à aparência física é notória na atualidade. Isso pode ser demonstrado, em parte, pela grande presença de matérias relacionadas à saúde, alimentação e exercício físico em qualquer veículo de comunicação. É sabido que fatores ambientais têm influência na gênese dos transtornos alimentares. O mesmo parece ocorrer com a dismorfia muscular. Neste contexto, academias de ginástica parecem ser o ambiente ideal para encontrar indivíduos com o transtorno. A alta prevalência de comorbidades entre os indivíduos com dismorfia muscular sugere que este quadro possa fazer parte de um grupo de sintomas com características em comum, como os transtornos alimentares, transtorno obsessivo-compulsivo e outros transtornos dismórficos corporais. Pacientes com transtornos obsessivos compulsivos parecem adaptar-se de forma extraordinária aos caracteres solitários e de rotina dos “treinos” de academia.

Estima-se que 4 entre 9 indivíduos com dismorfia muscular haviam desenvolvido o quadro após o uso de esteróides anabolizantes, sugerindo que estes possam causar alterações na percepção da imagem corporal (dados não conclusivos).

Embora a preocupação de um indivíduo de que seu corpo seja pequeno e franzino, quando na verdade é grande e musculoso, é a característica principal da dismorfia muscular, este sintoma está relacionado a padrões de alimentação específicos, geralmente compostos de dieta hiperprotéica além de inúmeros suplementos alimentares a base de aminoácidos ou substâncias para aumentar o rendimento físico. A atividade física pode ser realizada de forma excessiva, inclusive causando prejuízos nos funcionamentos social, ocupacional e recreativo do indivíduo, chegando a ocupar de 4 a 5 horas por dia. As atividades aeróbias são evitadas para que não ocorra perda da massa muscular adquirida durante as pesadas sessões de musculação. Os possíveis ganhos musculares são checados exaustivamente chegando a 13 vezes ao dia.

Pensamentos intrusivos de que estão fracos ou que precisam se tornar mais fortes são vivenciados por mais de 5 horas diárias em levantadores de peso com dismorfia muscular. Levantadores de peso sem o transtorno dizem ter estes pensamentos não mais que 40 min por dia. Estes pensamentos influenciam a auto-estima e a concentração dos indivíduos acometidos e os próprios consideram o tempo gasto com estes pensamentos excessivo. O espelho também torna-se algoz cruel, e as pessoas com quadros mais graves chegam a fantasiar cortar fisicamente partes de seu corpo que consideram “gordas”.

Os esteróides anabolizantes são utilizados ilicitamente, ou com prescrição médica em alguns países, por indivíduos, atletas ou não, com o objetivo de aumentar a força muscular ou melhorar a aparência. Seus usuários acreditam que estas drogas proporcionam sessões de atividade física mais intensas por retardar a fadiga, aumentar a motivação e a resistência, estimular a agressividade e diminuir o tempo necessário para a recuperação entre as sessões de exercício. Além disso, os esteróides anabolizantes têm ação direta no crescimento do tecido muscular.

A descrição inicial da dismorfia muscular deu-se em uma amostra de indivíduos levantadores de peso na qual evidenciou-se uma correlação positiva entre o uso de esteróides anabolizantes e a presença do transtorno. Observou-se que indivíduos freqüentadores de academias de ginástica que faziam levantamento de peso e tinham dismorfia muscular apresentavam maior prevalência de uso de esteróides anabolizantes do que os indivíduos nas mesmas condições sem o transtorno. Outro aspecto que merece ser apontado é que os indivíduos com uso destas drogas apresentam uma maior distorção de imagem corporal do que aqueles que não as utilizam.

O uso de esteróides anabolizantes está associado a uma série de problemas tanto físicos quanto psiquiátricos. Dentre os problemas físicos estão maiores riscos para o desenvolvimento de doenças coronarianas, hipertensão arterial, tumores hepáticos e, por alterar os níveis de hormônios sexuais, hipertrofia prostática, atrofia testicular, atrofia mamária, alteração no padrão de pilificação (especialmente em mulheres), alteração da voz e hipertrofia de clitóris em mulheres. Dentre as alterações psiquiátricas descritas na literatura, os principais quadros associados ao uso de esteróides anabolizantes envolvem sintomatologias psicótica e maniforme na vigência do seu uso e sintomas depressivos quando de sua abstinência.

Não há qualquer descrição sistemática do tratamento da dismorfia muscular. Uma combinação dos métodos geralmente utilizados no tratamento do transtorno dismórfico corporal e dos transtornos alimentares pode servir como diretriz para o tratamento da dismorfia muscular. Da mesma forma que indivíduos com anorexia nervosa, os indivíduos com dismorfia muscular dificilmente procuram tratamento. Quando o fazem, sua adesão poderá ser pequena uma vez que os métodos propostos geralmente acarretarão perda de massa muscular.

A terapia cognitivo-comportamental parece ser útil no tratamento da dismorfia muscular. Suas estratégias incluem a identificação de padrões distorcidos de percepção da imagem corporal, identificação de aspectos positivos da aparência física e confrontação entre padrões corporais atingíveis e inatingíveis. Os comportamentos compulsivos relacionados ao exercício, dieta ou de checar o grau da musculatura devem ser inibidos. Da mesma forma, o indivíduo deve ser encorajado a gradualmente enfrentar sua aversão de expor o corpo.

Alguns aspectos obsessivos e compulsivos destes indivíduos podem ser minimizados com o uso de inibidores seletivos da recaptação de serotonina.

Estas propostas de tratamento são, em sua maior parte, "emprestadas" do tratamento de quadros correlatos e não devem ser entendidas como definitivas. O tratamento da dismorfia muscular carece de mais estudos que poderão definir melhores formas de abordagem terapêutica.

A dismorfia muscular é um quadro ainda pouco estudado, mas que parece ser prevalente entre indivíduos do sexo masculino. Uma vez que pode ter sua gênese parcialmente explicada por fatores ambientais, uma crescente pressão, exercida em grande parte pela mídia, para que os homens tenham um corpo forte e musculoso pode acarretar um aumento na incidência do transtorno. A dismorfia muscular está associada a sofrimento e prejuízos em várias áreas de funcionamento do indivíduo. Além disto, sua presença pode aumentar o risco de uso de esteróides anabolizantes, drogas com conseqüências potencialmente perigosas. Apesar de seu tratamento ainda não estar definido, é importante que o quadro seja identificado e que as diretrizes terapêuticas atualmente disponíveis sejam aplicadas.



Dá para acreditar que caras como os da foto acima (não sei se necessariamente estes) podem se olhar nos espelho, acharem-se PEQUENOS e experimentarem profundos angútia e sofrimento?



5 comentários:

Lex Grego disse...

Dá pra acreditar sim, ainda mais quando você já sentiu na pele.
Tá que eu nunca fiquei desse tamanho, mais chego lá! hahahaha

Alexandre Lucas disse...

You play, you pay...

GUI SILLVA disse...

informação ainda é a melhor opção...

" O PIMENTA ! " disse...

ótimo texto...vou levar pros insanos da minha academia lerem.....valew, abração

Alexandre Lucas disse...

"o pimenta!": faço minhas as palavras do Gui...